O Instituto do Vinho e da Vinha (IVV) organizou recentemente nas suas instalações uma prova de vinhos denominada 'Dois séculos de Vinho em Portugal'. Um evento que não deixou indiferente nem os produtores participantes (que gentilmente cederam das suas garrafeiras vinhos raros) nem os jornalistas nacionais e internacionais que ali se deslocaram para os apreciar.
Houve brancos e tintos, portos e madeiras e até moscatéis, num total de 47 vinhos que dificilmente se voltarão a reunir novamente em prova. Já há tempos referi os vinhos velhos surpreendentes que um dia encontrei no Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão, em Nelas, e fiquei bastante surpresa ao encontrar vinhos da mesma origem nesta prova. Curiosamente, destacaram-se entre os demais os brancos da casta Encruzado das colheitas de 1964 / 1971 / 1980 e 1992. Os tintos também se portaram à altura, das colheitas de 1963 / 1970 e 1971. ? só nestas alturas que gostava de ser ligeiramente mais velha para ter conhecido e trocado impressões com o engenheiro Vilhena, responsável por estes vinhos e um dos homens que mais contribuiu para o conhecimento das castas e dos vinhos do Dão.
Mas outros vinhos de outros produtores também foram provados, quase todos a respirar saúde. Bágeiras branco 1989, Tinto Velho José Rosado Fernandes 1945, Quinta da Falorca tinto 1963, os Portos Barros Colheita 1941 e o Poças Colheita 1976, O Alambre Moscatel 20 anos e, por último, os Madeira D'Oliveiras Verdelho 1890 e o Blandy's Bual 1920, são apenas alguns dos exemplos. Um momento raro para estudar o comportamento dos nossos vinhos nas últimas décadas, assim como para apreciar os seus atractivos e complexos aromas evoluídos: feno, ginja e outras notas licoradas, resina, cola, frutos secos, torrefação, entre tantos outros.
Quem pensa que em Portugal não tinha vinhos com capacidade para envelhecer, deveria obrigatoriamente provar estas pequenas relíquias que provam exactamente o contrário. ノ uma minoria, eu sei... Pena tenho que no passado as técnicas de viticultura, assim como as práticas enológicas, estivessem pouco desenvolvidas, pois teríamos aproveitado muito mais o nosso grande potencial em matéria de vinhos. Os mesmos vinhos, pequenos milagres que consigo encontrar em provas raras, infelizmente pouco conhecidas e não acessíveis à maioria dos enófilos...