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Colares, um património preservado

Fundada em 1931, a Adega Regional de Colares surgiu para defender e preservar a genuinidade dos vinhos de Colares que, à conta da fama que tinham alcançado, eram muitas vezes adulterados e vendidos por produtores pouco sérios. Nos século XIX, a área de vinha circundante à vila de Colares chegou aos 2000 hectares. Hoje, são pouco mais de vinte hectares. Não fosse o esforço da Adega Regional de Colares e a de novos produtores que entretanto surgiram na região, o vinho de Colares seria completamente esquecido.

A Denominação de Origem Colares situa-se entre a serra de Sintra e o Atlântico, reunindo as freguesias de Colares, São Martinho e São João das Lampas. Não se conhecem registos de quando se plantaram as primeiras vinhas, mas a referência mais antiga faz parte da Carta Foral de Sintra e data de 1154.

Apesar de referenciado ao longo dos séculos, Colares cresceu decisivamente em fama e em valor a partir de 1865, data em que os vinhedos nacionais foram devastados pela filoxera, doença que atingiu toda a Europa, excepto Colares, devido às condições arenosas dos terrenos onde o temido insecto não encontrou modo de penetrar, já que não conseguia chegar às raízes fundas da planta. É desta forma que o vinho da região se impõe, tornando-se no principal vinho de mesa nacional, mencionado por diversas vezes em importantes estudos de viticultura nacional e até na nossa literatura, em particular, na obra queirosiana.



A Adega de Colares surge em Agosto de 1931, num imponente edifício construído nos finais do século XIX, com 81 sócios, defensores do vinho da região. Dez anos depois, a adega passou também a ter o poder de certificar os vinhos da região. Com o consumo a aumentar devido ao mercado das colónias, a adega chegou a produzir um milhão de litros no final da década de 60. Este período folgado prevaleceu até ao corte das exportações provocado pela guerra do Ultramar, que acabou por instalar uma nova crise.



então, a adega tem vivido altos e baixos, mas tem conseguido manter-se e sobreviver às dificuldades. E a partir de 1994 começam a colocar-se em prática novos projectos, como a aposta na criação de marcas próprias, um dos investimentos mais significativos, que veio dar um novo fôlego e uma nova resposta ao mercado. Actualmente, a adega tem as marcas Arenae - DOC Colares (branco e tinto, provenientes de solos arenosos), Chão Rijo-Regional Estremadura (branco e tinto, vinhos de solos não arenosos), e O Saloio - Vinho de Mesa (branco e tinto, vinhos despretensiosos, disponíveis em garrafa ou garrafão). No entanto, grande parte do escoamento continua a ser feito através de empresas engarrafadoras da região, que compram vinho à adega e o vendem através das suas marcas.

 Em 1995, o reconhecimento de Sintra como Património da Humanidade por parte da UNESCO veio dar novo alento ao vinho de Colares, levando visitantes à região que se mostram curiosos e interessados em conhecer os seus vinhos. Actualmente, a adega reúne mais de cinquenta por cento da produção da região e mais de noventa por cento dos produtores.

Ir hoje à adega de Colares é como entrar num túnel do tempo. O espaço permanece quase igual à época em que foi construído, estando bem preservado e preparado para receber visitantes. A sua oferta enoturística não é muito variada, mas isso não impede a adega de receber gente que ali se desloca propositadamente para conhecer a sua história emblemática. Assim, os visitantes podem fazer parte de visitas guiadas à adega e às vinhas dos seus associados, bem como fazer provas de vinhos. Há também quem alugue a nave principal da adega para festas, reuniões e provas de vinho.



Colares, um vinho tradicional  

O Colares tradicional é produzido numa faixa exposta ao mar, que se situa a Norte de Sintra, em solos de areia. É, aliás, esta característica que contribuiu para a diferença marcante no Colares, pois impediu a proliferação da filoxera que arrasou a viticultura europeia no século XIX, provocando enormes prejuízos e profundas alterações.

O Ramisco de Colares de chão de areia continua, por isso, a ser um vinho de pé-franco, obtido a partir de uma planta 100% europeia. Mas a sua plantação exige enorme esforço, face à profundidade a que muitas vezes se têm que colocar ou ‘unhar’, os bacelos.

Numa publicação de 1938 da Adega Regional de Colares, intitulada «O Vinho de Colares», a plantação é assim descrita: no fundo das valas abertas «unham-se numa superfície em forma de paralelogramo, ocupando apenas 2 metros quadrados, 30 bacelos da casta Ramisco. A estes bacelos, que têm um comprimento de 3 a 5 metros, dá-se uma certa inclinação divergente do centro. Enterrados esses bacelos, cerca de 25 centímetros (…) procede-se ao enchimento do fosso ou vala, até certa altura, de terreno areento, devendo ficar apenas acima da superfície os olhos, para que, quando os botões já derem ramos laterais, se proceda ao nivelamento, para o terreno voltar à sua posição primitiva».

A condução da vinha vai também estar condicionada em função do local de plantação e da sua exposição marítima. As plantas têm que ser conduzidas em formas baixas, com protecções que impeçam o efeito nefasto dos ventos salgados do mar. Tradicionalmente, cada cepa desenvolve um variado conjunto de varas de grande comprimento, formando o que se apelida de rastrões, a partir dos quais se originam as varas produtoras de uvas, chamadas de os soberanos. Estes rastrões são deixados sobre a areia, de forma a garantir-lhes uma maior protecção, reforçada com a construção de paliçadas ou abrigos de canas, urge ou mato. Os abrigos mais importantes são aqueles que correm junto à linha da costa, são os mais resistentes e denominam-se de abrigos mestres. São complementados por outros que se desenvolvem perpendicularmente e se designam «travessenhos». Quando se aproxima a maturação, os rastrões e os soberanos são ligeiramente levantados do solo com a ajuda de pequenas canas de 20 a 30 centímetros, os pontões, evitando assim que a uva possa ser danificada pela temperatura excessiva da areia a certas horas, e facilitando o processo de maturação.

Plantação das cepas
Construção de paliçadas ou abrigos de canas, urge ou mato para proteger as cepas dos vento
Vndimas



Tudo isto se tornou também uma dificuldade acrescida para a vitivinicultura de Colares, quer pelas exigências de mão-de-obra, quer pelo custo. Estas dificuldades levaram muitas vezes a adulterações, resultantes da mistura de vinho de chão de areia com vinho de chão rijo, de menor qualidade, ou à adição de aguardente para aumentar o deficiente teor alcoólico dos vinhos. Também este facto acabou por contribuir para o declínio do Colares.

Os esforços que têm sido feitos, ao longo do tempo, para manter este vinho cheio de história são variados. E vale a pena, pela diferença, originalidade, raridade e qualidade.

Segundo o reconhecido agrónomo e investigador Cincinnato da Costa (1900), a Casta Ramisco , que dá alma a este vinho, é «uma casta tinta das mais notáveis de Portugal, pelo sabor e perfume agradabilíssimo que imprime aos vinhos que origina», e acrescenta ainda: «Frescura, graça, perfume, sabor, delicadeza, suavidade, nada lhes falta, quando oriundos de boas lavras, para serem vinhos completos».

As condições de produção tornam a obtenção de um equilíbrio de maturação muitas vezes difícil de alcançar. Para além de alguma sensibilidade a doenças como o míldio e o oídio, as plantas de Ramisco originam uvas com teores alcoólicos normalmente baixos, entre dez e meio a doze por cento de volume, acidez elevada e grande taninosidade, o que impede o seu consumo com prazer enquanto jovens, requerendo uma longa maturação. As colorações não são normalmente intensas, os aromas podem inicialmente lembrar amoras silvestres e alguma resina. Na boca são vinhos frescos e de forte adstringência.

Sem dúvida, uma experiência sensorial que todos os apreciadores de vinho do mundo devem viver.



Fotografias Antigas: Arquivo Adega de Colares (fotos início século XX)

Fotografias actuais: Pedro Bettencourt